“Lectio divina: um método monástico de meditação”. Conferência de D. Bernardo Bonowitz na PUC-PR

Publicamos a conferência de D. Bernardo Bonowitz, abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, para a abertura do Programa de Meditação promovido pelo Observatório de Educação para a Interioridade da PUC-PR. Além de D. Bernardo, tomaram parte no evento a Monja Coen (monja budista) e o Professor Gilberto Gartner (especialista em psicologia do esporte).

D. Bernardo versou sobre a prática da lectio divina, a leitura orante da Sagrada Escritura. Mais do que um método de interiorização individual, a lectio divina é sobretudo um caminho de encontro do coração do homem com o coração de Deus.


Lectio divina: um método monástico de meditação

Esta noite eu gostaria de refletir com vocês sobre uma forma de meditação muito antiga, judaica e cristã, que chamamos de lectio divina. A lectio divina é uma parceria entre Deus e a pessoa que medita as Sagradas Escrituras. Como o próprio nome indica, ela é, em primeiro lugar, uma atividade divina: é Deus que age. Deus fala ao ser humano por meio de sua Palavra viva, a Bíblia. E falando, Ele se revela e se comunica e aguarda a resposta à sua revelação. Trata-se, essencialmente, de um diálogo: Deus me aborda através do texto bíblico, numa profundidade cada vez maior; e eu, acolhendo essa Palavra, interpelado por ela, falo com Deus.

Monaco della Certosa Serra San Bruno, Calabria . Oct-2008

Para nós cristãos, as Escrituras não são letra morta, escritas em um passado distante por pessoas de outro tempo e cultura, algo historicamente condicionado. A Bíblia é Deus que fala no presente. Ele é o autor de sua Palavra, que ele continuamente vivifica. E essa Palavra nos é endereçada no hoje da nossa existência, nas circunstâncias interiores e exteriores que vivemos agora. São Bernardo de Claraval diz que na lectio divina devemos estar sempre com dois livros nas mãos: o livro da Escritura e o livro da nossa própria experiência. Trata-se de um encontro entre a Palavra revelada e a minha pessoa, atingida por essa Palavra.

A Palavra de Deus é poder divino. Ela não se limita a tocar a superfície do meu ser. Ela quer alcançar o coração, o centro absoluto do nosso ser; ela quer nos recriar. A meta da Palavra de Deus que vem ao meu encontro na lectio divina é levar-me à minha plenitude, à plenitude que Deus deseja para mim. Ela forma em mim a mente de Cristo, e estabelece em todo o meu ser uma nova lei, a lei do Espírito, capacitando-me a amar como Deus ama e, de fato, a amar a Ele e a tudo aquilo que existe com o mesmo amor divino com o qual eu sou amado.

Lectio divina é a vivência da salvação. Cada vez que me deixo ser penetrado pela Palavra viva, sou posto à prova, julgado pelo meu egoísmo e pela minha indiferença à vida dos outros. Ao mesmo tempo, abrindo-me ao novo horizonte que a Palavra me manifesta, sou liberto dos meus limites para dedicar-me mais plenamente à adoração de Deus e à comunhão com todas as criaturas.

A lectio não é um exercício intelectual, não é um prazer estético, não é uma prática devocional. É um acontecimento existencial, que deve ser transformativo. Quando leio a Palavra de Deus, tenho que dizer sim ou não à nova possibilidade que Deus me apresenta. O grande teólogo luterano do século XX, Dietrich Bonhoeffer, disse: “Aquele que se senta para meditar o Evangelho, e ao levantar ainda é a mesma pessoa que era quando começou, não estava lendo o Evangelho”.

A Palavra de Deus nos transforma. A mente humana tem resistências de todo tipo, muitas delas inconscientes, ao projeto da Palavra de Deus de fazer sua morada em nós e de fazer de cada um de nós uma nova criatura. Ao mesmo tempo em que desejamos a comunhão com Deus, causa-nos uma profunda angústia a ideia de nos entregarmos a um outro, mesmo que esse Outro seja Deus, e permitir que ele viva e aja no recinto da nossa liberdade.

Como antídoto a essas resistências, a tradição mística cristã desenvolveu um método de abertura, uma maneira de deixar-nos cada vez mais acessíveis à vinda da Palavra em nós. Quem sistematizou esse método foi um monge cartuxo do século XII, Guigo, e o título de seu tratado sobre a lectio divina é “a Escada dos Monges”. Vamos olhar os quatro graus da escada que será a base de nossa própria lectio divina.

O primeiro grau é o simples ato de leitura – lectio – de uma passagem bíblica, preparado por uma oração ao Espírito Santo. A passagem deve ser lida lentamente, pausadamente, e deve ser breve. Em algum momento, diante de algum versículo ou palavra do texto, mesmo numa segunda ou terceira leitura, sentiremos a nossa atenção atraída, presa. Quando isso acontecer, não há necessidade de ler mais nada. Uma vez que uma palavra do texto nos prende, paremos. É esta a palavra que nos foi dada.

Passamos então ao segundo grau, chamado de meditação ou ruminação – ruminatio. Trata-se de um processo de repetição interior (daí “ruminação”) daquele versículo ou palavra, sem nenhuma tentativa de analisá-la ou compreendê-la. Simplesmente deixar esse versículo ecoar dentro de si. Muitas vezes a lectio não vai além disto; não precisa. E nunca devemos aplicar força. Pela própria repetição interior da palavra que nos foi dada, Deus está remodelando – divinizando – a nossa interioridade. A Palavra está, pouco a pouco, se tornado carne dentro de minha carne. Outras vezes, a Palavra evoca memórias, emoções, conflitos, esperanças, desejos. Nesse caso, a Palavra está chamando essas realidades interiores para a sua luz, iluminando-as e unificando-as.

Quando isso acontece, passamos para o terceiro grau: oração – oratio. Uma vez interiorizada, a Palavra de Deus age em nós e suscita a nossa palavra: um grito de ajuda, uma explosão de alegria, um transbordamento de amor, uma dor profunda – que normalmente sairá de nós em uma única palavra.

O quarto grau, raramente concedido, é a contemplação – contemplatio. É a superação de toda distância entre a palavra sagrada e nós. De uma forma silenciosa e tranquila, a palavra se realiza em nós: “Faça-se a luz!” – e de repente somos luz. “Teus pecados estão perdoados” – e isso vira acontecimento. No momento da lectio, quando chegamos à contemplatio, a palavra torna-se evento. ⊕

Respostas às perguntas do presidente da mesa

O exercício da lectio divina é também o exercício de morrer cotidianamente?

Acredito que estamos inseridos em um processo que se realizou pela primeira (e definitiva) vez em Jesus, em sua morte e Ressurreição. Acredito que todo ser humano é chamado para dentro desse processo. O que deve morrer não é o que é bom, o que é verdadeiro – mas sim um corpo estranho: uma presença alheia, que envenena a nossa vida, que podemos chamar de ilusão, de pecado, de vaidade, de mentira. Isso tem que morrer. Acredito que não devemos dizer que precisamos apenas de um tratamento cosmético porque basicamente está tudo bem conosco. Isso não é verdade. Existem raízes em nós muito destrutivas, que exercem em nós uma influência profunda e forte. Acredito que parte integrante da própria experiência da meditação é viver essa morte e ressurreição.

Durante os meus primeiros anos de vida monástica, me lembro de ter vivido um tempo em que a meditação silenciosa produzia em mim um medo tremendo, como se eu fosse Isaac e Deus quisesse me sacrificar. Custava-me muito dar o meu consentimento. De alguma maneira, eu sabia que se eu me permitisse morrer dessa forma, quem nasceria seria um novo eu em Cristo. Não seria o aniquilamento – seria a transformação total. Sim, quando Deus chama alguém para segui-lo, Ele o chama para morrer; mas essa morte não tem a última palavra. Deus nos chama para uma existência de grandeza quase inimaginável, que passa por muitas mortes – e se abre para muitas vidas, isto é, para dimensões riquíssimas da vida.

Pessoalmente, acredito que a compaixão de que tanto falamos só pode ser alcançada por meio de uma morte radical – que com toda a certeza vale à pena, embora isso não tire nada da dor do processo. O que acho interessante é que eu não posso chamar-me a morrer. Pelo menos na nossa tradição, o chamado vem de fora, e nós consentimos não porque queremos morrer, nem mesmo porque queremos ressuscitar, mas por amor de quem chama. Esse é o ponto central.

O que o cristianismo entende por compaixão e sobre como sermos seres compassivos?

A nossa ordem monástica – a Ordem Cisterciense – foi fundada no fim do século XI e desenvolveu uma escola de pensamento, um conjunto de pensadores que chamamos de Padres Cistercienses. O mais conhecido deles é São Bernardo de Claraval. Ele sintetiza o problema no fato de que tendemos a construir nossa identidade justamente em torno daquilo que nos distingue, que nos separa. Desse modo nunca poderia haver um encontro para o soberbo, porque, para Bernardo, compaixão e humildade são inseparáveis. Para o soberbo, cada encontro é avaliativo, na esperança de que ele possa provar para si mesmo que o outro é menor do que ele. Essa é a esperança secreta do soberbo.

A humildade pouco a pouco nos liberta desse desejo de construir uma identidade totalmente separada. A humildade nos permite reconhecer as nossas semelhanças, e nos alegrarmos nelas. Acho que esse é o momento da mudança radical. Até um certo ponto, eu me sinto eu por causa da minha suposta superioridade e diferença. Em algum momento, isso passa a não valer nada e surge um desejo e uma descoberta de comunhão. Não como algo a ser criado, mas como algo que já existe. Os Padres Cistercienses gostam muito de dizer que somos parceiros da mesma natureza. E essa parceria é o fundamento mais sólido e profundo de nosso ser.

A Monja Coen – a quem eu queria muito conhecer e me alegro por ter essa oportunidade – contou uma anedota chocante sobre um monge torturado. Parece que um dos experimentos científicos dos nazistas – e, sendo judeu, evidentemente isso me toca de uma forma particular – consistia em manter um homem e uma mulher, ambos nus, em duas gaiolas separadas, privando-os de toda a dignidade, de todo o alimento, de todo apoio humano, de toda a proteção. Em um determinado momento, as gaiolas eram abertas e fora delas havia um prato de comida. O desejo dos cientistas nazistas era saber qual é o instinto mais primordial: o instinto de sobrevivência – nesse caso a primeira coisa que os dois fariam seria se alimentar – ou o instinto reprodutivo – nesse caso os dois primeiramente teriam uma relação sexual. Eles realizaram esse experimento e, ao abrirem as gaiolas, o que aconteceu? Os dois saíram e se abraçaram, compadecendo-se um do outro. Essa é a humanidade indestrutível. Essa é a premissa de nossa compaixão.


Algumas fotos do evento:

Nossa gratidão ao amigo Felipe Koller pela transcrição do áudio da conferência, e ao Observatório de Juventudes da PUC-PR pelas fotos do evento.
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13 comentários sobre ““Lectio divina: um método monástico de meditação”. Conferência de D. Bernardo Bonowitz na PUC-PR

  1. Esse texto aqui é ouro! Ah, se todas as paroquias, grupos de estudos biblicos pudessem ler esse texto e ter a experiência de lectio divina!
    Não vale recitar o texto todo, mas o quê eu ressaltaria:

    “A lectio é um acontecimento existencial, que deve ser transformativo . “

    “Dietrich Bonhoeffer, disse: “Aquele que se senta para meditar o Evangelho, e ao levantar ainda é a mesma pessoa que era quando começou, não estava lendo o Evangelho”.

    E ainda esse trecho aqui …

    “A humildade pouco a pouco nos liberta desse desejo de construir uma identidade totalmente separada. A humildade nos permite reconhecer as nossas semelhanças, e nos alegrarmos nelas. Acho que esse é o momento da mudança radical. Até um certo ponto, eu me sinto eu por causa da minha suposta superioridade e diferença. Em algum momento, isso passa a não valer nada e surge um desejo e uma descoberta de comunhão. Não como algo a ser criado, mas como algo que já existe. Os Padres Cistercienses gostam muito de dizer que somos parceiros da mesma natureza. E essa parceria é o fundamento mais sólido e profundo de nosso ser. “

    Oh céus… acho que vou ter que traduzir esse texto, se os Irmãos me permitirem…

    Tsultrim

    Curtido por 1 pessoa

  2. Caros; sou leigo. não conhecia os 4 passos. excelente.. minha experiência de “lidar” com Deus começa sempre meio caótica; mil pensamentos simultâneos.., de repente é um mecanismo semelhante ao do nosso palestrante (medo de encarar?).Para mim, conseguir focar já é um evento! Outras vezes fico quase obsessivo; o pensamento sobre um tema reitera-se sem parar (estou agora assim com nossa virgem Maria). entender (como experiência) o sentido da absoluta entrega; aquela experiência de abrir o intimo da intimidade. ruminar…dias e dias. Vou praticar melhor”
    Abraço pro Ir. Guilherme
    silvio -bsb

    Curtido por 1 pessoa

  3. Gente AMEI! Muito! Lendo calmamente, “saboreando” a leitura maravilhosa e eis que sou tocada por este trecho: 💜

    “Durante os meus primeiros anos de vida monástica, me lembro de ter vivido um tempo em que a meditação silenciosa produzia em mim um medo tremendo, como se eu fosse Isaac e Deus quisesse me sacrificar. Custava-me muito dar o meu consentimento. De alguma maneira, eu sabia que se eu me permitisse morrer dessa forma, quem nasceria seria um novo eu em Cristo. Não seria o aniquilamento – seria a transformação total. Sim, quando Deus chama alguém para segui-lo, Ele o chama para morrer; mas essa morte não tem a última palavra. Deus nos chama para uma existência de grandeza quase inimaginável, que passa por muitas mortes – e se abre para muitas vidas, isto é, para dimensões riquíssimas da vida.”

    DEUS… como eu amo este DEUS amoroso que me guia e me protege! ❤
    Muitíssimo grata a Comissão Cisterciense!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Agradeço por compartilhar o texto e as experiências.
    …ajuda-me a desejar perceber alguma verdade e assim, crescer na fé pela iluminação da graça. Participar das coisas divinas, na medida em que somos movidos pelo Espírito Santo, é a prova que estamos participando de uma outra natureza.
    Muito obrigada!
    Deus abençoe +

    Curtido por 1 pessoa

  5. Foi uma noite de muita espiritualidade. Dom Bernardo tocou-nos com sua serenidade e humildade.
    Estou participando da Oficina de Meditação Cristã e ter a oportunidade de realizar a Lectio Divina com o acompanhamento e orientação de pessoas tão espiritualizadas é um presente de Deus em minha caminhada.
    Já conhecia o irmão Guilherme e seu dom para a música através de minhas idas ao mosteiro, sua didática na abordagem bíblica me cativou e aqueceu meu coração.
    Meu muito obrigada e que Deus os abençoe!

    Curtido por 1 pessoa

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