“Dar nome à própria sede”: Entrevista com D. Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral da Ordem Cisterciense

Foto-DMauro-3 FINALA última reunião da Comissão Cisterciense de Intercâmbio, realizada na Abadia Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen, em Itatinga (SP), contou com a presença de D. Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral da Ordem Cisterciense, que nos concedeu esta entrevista para o Caminho Cisterciense.

D. Mauro nasceu em Lugano, na região de língua italiana da Suíça. Ingressou na Abadia Cisterciense de Hauterive em 1984. Ainda jovem monge, foi nomeado, em 1990, Mestre de Noviços em Hauterive, cargo que exerceu até sua eleição abacial, quando contava apenas 35 anos de idade. Foi abade desta comunidade de 1994 a 2010, quando foi eleito Abade Geral da Ordem.

Antes de ingressar no mosteiro, estava ligado ao movimento Comunhão e Libertação, de Mons. Luigi Giussani, que busca uma participação cristã ativa na sociedade e na cultura.  É autor de diversas publicações, coleções de homilias, reflexões, artigos em revistas de espiritualidade. Tornou-se, assim, pessoa muito conhecida no mundo da espiritualidade monástica e da espiritualidade cristã em geral, o que lhe tem valido frequentes convites para conferências e intervenções em eventos eclesiais.

Agradecemos a D. Mauro por sua generosidade em partilhar sua sabedoria e experiência com os leitores do Caminho Cisterciense.


A tradição monástica sempre viu no Deserto um dos símbolos mais expressivos de sua identidade: o Deserto como o lugar da travessia e da provação, onde os caminhos não são claros e a água é escassa. Para Bento XVI, o grande deserto que a Igreja atravessa hoje é o da cultura secularizada e materialista, da qual vêm sendo sistematicamente apagados todos os sinais que falam de Deus e do Transcendente. Nesse contexto, como o senhor vê o lugar da vida monástica? Haverá lugar para a vida contemplativa numa sociedade que parece ter se esquecido de Deus ?

A cultura secularizada e materialista tenta apagar todos os sinais de Deus e do transcendente, mas não pode apagar a sede de felicidade, de verdade, de beleza e de amor que está no coração humano. O verdadeiro deserto que a época moderna criou é a perda da sensibilidade às exigências profundas do nosso coração, como se o homem não mais escutasse o grito de seu próprio coração. Também porque este “sinal” é muitas vezes enfraquecido com sedativos, anestesiado, censurado. Quando nos ocupamos de outras coisas, tornamo-nos distraído por causa delas. O grito do coração é tratado como o grito de uma criança chata e caprichosa que os adultos fazem calar porque eles devem ocupar-se de coisas sérias. Ou então é escutado de modo sentimental, como se o coração pedisse somente um pouco de açúcar para voltar a dormir e não incomodar mais. Mas, julgar-se adulto quando não se ouve este grito, é uma ilusão, permanecemos então imaturos.

É um espetáculo desolador ver a imaturidade adolescente do adulto contemporâneo, a sua incapacidade de paternidade, de maternidade, de responsabilidade, de educação dos mais jovens; é desolador ver a gestão irresponsável dos recursos, dos bens materiais, a incapacidade de dedicar-se a uma cultura profunda, de admirar em silêncio a beleza ou acolher com gratidão criativa uma tradição. Tudo isto torna a vida do homem contemporâneo superficial, anônima, impessoal. E, portanto, triste.

Mas talvez seja precisamente aqui que a humanidade contemporânea se encontra num deserto: o deserto do sentido transcendente da vida. Por isso a humanidade tem sede, sede do eterno e do infinito, sede de Deus. Mas não o sabe, não é capaz de dar um nome à própria sede. É aqui que a Igreja – e particularmente a vida monástica – tem hoje, mais que nunca, uma missão, a missão evangélica que, partindo do coração misericordioso de Cristo, olha para a multidão e sente compaixão precisamente disto: desta desorientação, desta incapacidade de viver a vida com um sentido, de este estar perdido sem pastor (cfr. Mc 6,34). Jesus sabe que é, em sua própria pessoa, o sentido da vida humana, por isso ao ver a humanidade desorientada, oferece a si mesmo, sua presença, seu olhar, sua palavra. Assim, a tarefa principal da vida monástica neste mundo secularizado é, antes de tudo, criar lugares, comunidades, pessoas nos quais a presença de Jesus, o seu olhar e a sua palavra sejam preferidos antes de qualquer coisa. Lugares e pessoas nos quais o Sentido da vida possa ser experimentado e percebido – em primeiro lugar pelos próprios monges. Quem faz uma experiência real da presença de Jesus que fala ao coração do homem, torna-se ele mesmo sinal do Sentido da vida para todos, como a lâmpada que, uma vez acesa, ilumina toda a casa.

A sociedade que se esqueceu de Deus é o novo deserto monástico ao qual devemos “retira-nos” para fazer memória d’Ele. O deserto é menos o lugar no qual encontramos Deus do que o lugar onde Deus não está presente e para onde Ele quer ser atraído por uma liberdade que O deseja, que O requer, que tem sede d’Ele, que faz memória d’Ele. Os monges devem retirar-se ao deserto para entrar no coração do mundo, lugar da sede da humanidade que Cristo quer saciar.

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Abadia de Hauterive, procissão no claustro

Fale-nos um pouco sobre sua vocação: como Cristo o encontrou e o chamou para si?

Encontrei Cristo em várias ocasiões e momentos da minha vida, desde a infância na minha família. Mas, existiram momentos nos quais o encontro com Ele foi, por assim dizer, fulgurante e me arrastou a desejar segui-Lo, a preferi-Lo a tudo. Uma característica do encontro que fiz com Cristo é que, cada vez, a experiência do meu coração se conjugava com o encontro com a Igreja, com uma comunidade eclesial. Talvez, antes o encontrava em uma experiência interior forte, extremamente alegre, ou extremamente dolorosa, mas sempre seguia também o encontro com uma comunidade cristã que, em um certo sentido, vinha confirmar e sustentar a experiência interior e dar-lhe a possibilidade de tornar-se um caminho. Um ponto culminante deste processo foi o momento no qual percebi o chamado monástico na abadia de Hauterive na Suíça. Sentia-me, já desde alguns anos, chamado a seguir Cristo, mas não pensava à vocação monástica – até porque, na verdade, ela me dava medo. Mas veio o dia quando a experiência da alegria do primeiro chamado que senti em Assis aos 18 anos se reacendeu no encontro com a comunidade cisterciense de Hauterive, e lá compreendi que tinha chegado a casa. No mosteiro, Jesus me atraiu a uma relação cada vez mais íntima com Ele, na oração do coração e no fascínio inesgotável da palavra de Deus. Mas sempre dentro do “canteiro de obras” da comunidade, no qual a relação fraterna na obediência precisou trabalhar muito sobre a pedra bruta que eu era.

Quando se deu minha a eleição como abade geral, e com ela a necessidade de deixar o meu mosteiro, a minha comunidade, e também o silêncio e a regularidade da vida monástica, não o senti como uma perda da minha vocação monástica e contemplativa, pois estava claro que era Jesus que, a partir daquele momento, me pedia para segui-Lo assim, viajando pelo mundo, visitando dezenas de comunidades, em culturas e observâncias muito diferentes. Não me senti, jamais, exilado da casa do mosteiro, porque Jesus é, Ele mesmo, a minha morada, a minha clausura, o meu silêncio, a minha comunidade que me mantêm unido aos irmãos de Hauterive em uma comunhão sempre mais profunda.

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Abadia de Hauterive, vista aérea

O senhor é monge da Abadia de Hauterive, que na Ordem Cisterciense é uma importante referência, especialmente no campo da Liturgia. Hauterive parece ter encontrado o equilíbrio entre a autêntica renovação e a Tradição. Qual o “segredo” de Hauterive?

Hauterive era a sede da comissão de liturgia da Ordem Cisterciense, da qual o abade Bernard Kaul, o meu abade, foi o presidente durante muitos anos, sobretudo nos anos pós–conciliares nos quais se vivia o ‘aggiornamento’, também litúrgico. Neste sentido trabalhou em estreita colaboração com os Cistercienses da Estrita Observância (Trapistas). Era um homem da Tradição sem ser tradicionalista, porque amava, antes de tudo, a Igreja e sabia que a Igreja é uma árvore que possui raízes profundas, mas, está viva também acima das raízes e nos novos ramos que nela crescem. Ele conseguiu, naqueles anos do pós–Concilio, conservar a tradição litúrgica cisterciense indo mais profundo nesta busca e evitando a tendência a fixar-se em certas formas agora esclerosadas da tradição tridentina. Fez, sobretudo, um grande trabalho recolhendo textos e melodias da tradição gregoriana.

Tudo isto fez, sim, com que a liturgia de Hauterive, quando entrei, fosse muito rica e bela, e dava acesso aos textos e melodias bem mais consistentes que as várias experiências realizadas no pós-Concílio, que agora já estão ultrapassadas. Dom Kaul, sobre certos aspectos, talvez tenha sido um tanto rígido; mas isto permitiu que, depois dele, fosse feita a transição com maior serenidade do que em outras comunidades onde tudo foi mudado às pressas sem o tempo para discernir. E, sobretudo, isto permitiu à comunidade permanecer sempre unida nas escolhas litúrgicas realizadas durante os últimos anos, sempre privilegiando a beleza e a profundidade de uma liturgia não apenas formalmente fiel mas verdadeiramente viva.

Vivemos hoje em uma cultura que os estudiosos chamam de “líquida” —modernidade líquida”: fugacidade e imediatismo, hedonismo e individualismo. O Evangelho, contudo, propõe um caminho inteiramente diferente: o caminho da perseverança, a busca humilde pela Verdade, o sacrifício, a profundidade no amor. Portanto, a transição da “cultura líquida” para a vida monástica exige dos jovens uma radical e profunda conversão de vida e de mentalidade. Qual conselho o senhor daria aos jovens que se preparam para ingressar na vida monástica?

A acolhida dos jovens de hoje à vida monástica é verdadeiramente um drama, porque, mais que nunca, os jovens de nosso tempo são chamados a abraçar uma forma de vida que vai contra a corrente dos valores nos quais cresceram. Eles percebem que os valores mundanos não preenchem seus corações; mas para muitos deles estes valores são como uma droga da qual é muito difícil desintoxicar-se. Por exemplo: estão agora viciados no ruído, nos meios de comunicação permanentemente à disposição, em cada instante e cada lugar onde se encontrem. Ingressar em uma vida na qual existe silêncio, na qual existe uma disciplina nos contatos, nas relações, no ver e ouvir as mensagens do mundo, para eles isso significa submeter-se a uma verdadeira e própria desintoxicação de drogas pesadas. Não e tanto o sacrifício ou o esforço que os assusta, porque pelo esporte, pela beleza física, pelo estudo ou carreira, fazem, muitas vezes, sacrifícios e esforços muito mais duros do que aqueles que se faz no mosteiro. É propriamente no funcionamento da comunicação que necessitam livrar-se de um ruído, de uma agitação e de  uma instintividade que constituem a cultura globalizada do mundo de hoje.

Penso que o primeiro modo de os ajudarmos nisto é, antes de tudo,  desintoxicando-nos nós mesmos, sermos livres nós mesmos desta droga que é a comunicação instintiva e superficial. E isto, infelizmente, nem sempre acontece. Existem mosteiros que não podem pedir uma maturidade neste sentido aos jovens porque os monges e as monjas são, eles mesmos, “drogados”, não são livres disto.

Mas, sobretudo é importante que os jovens encontrem, para acolhê-los no mosteiro ao qual se sentem chamados, um olhar paciente e desejoso do seu verdadeiro bem. Se Cristo os chama, é porque a liberdade deles para segui-Lo até o fim é possível. Jesus, quando chamou o jovem rico com amor, lhe propôs a liberdade do apego às suas riquezas porque sabia que era possível. E porque era possível? Porque era uma graça que Jesus queria dar-lhe, se tivesse permanecido com Ele. Por isso não existe nada, nenhum laço que possa impedir, de per si, a vocação monástica.

É essencial, agora, propor aos jovens uma experiência gradual e paciente de beleza e plenitude de vida maior e mais profunda do que aquela que são chamados a deixar; de propor-lhes uma relação verdadeira e profunda com Deus, bebendo da fonte inesgotável de sua Palavra, da amizade com Jesus, da ternura do Pai, da consolação do Espírito Santo. Tudo isto dentro de uma comunidade verdadeiramente fraterna, uma comunidade que trabalha a própria fraternidade, que dialoga sobre a Palavra de Deus, que compartilha as alegrias e dores de cada um, e também que sabe atravessar os conflitos para crescer na comunhão.

E como propor isto? Vivendo-o nós mesmos, nós que já estamos no mosteiro, nós que seguimos há anos na vida monástica. Os jovens intuem logo se a proposta de uma comunidade é real ou somente formal. Se a vida monástica e fraterna de um mosteiro é somente “virtual”, tanto faz permanecer no mundo virtual onde já se encontram. Os jovens de hoje são um provocação a converter-nos à verdade da experiência que a nossa vocação exige, para que a vida monástica seja presença significativa na Igreja e no mundo de hoje. ⊕

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12 comentários sobre ““Dar nome à própria sede”: Entrevista com D. Mauro-Giuseppe Lepori, Abade Geral da Ordem Cisterciense

    • Caríssimo,
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  1. Parabéns pela bela entrevista. A sede de realidade, patente para o homem moderno, esconde a mais absoluta realidade: a realidade da sede de Deus.
    Mas este desejo (sede) mais profundo é ridicularizado e, creio, daí vem o desprezo da contemplação. A missão do monge é cada dia mais importante é urgente. Obrigado!

    Curtido por 5 pessoas

  2. A vida monástica é um deserto, em si mesma; mas, perante o mundo atual, ela é mais como um oásis para quem está sofrendo com a sede de sentido. Como presbítero secular, vejo os monges e as monjas com “santa inveja”. Penso que, se eu tivesse conhecido a vida monástica à época da minha busca vocacional, talvez eu tivesse me tornado um monge, para a glória de Deus. Mas o que importa é sempre lançar-me a descobrir, mesmo como padre diocesano, atalhos para banhar-me no grande rio da tradição eclesial de vida contemplativa.

    Curtido por 5 pessoas

    • Prezado Pe Juliano Ribeiro boa noite !
      Permita-me compartilhar convosco deste sentimento, se no momento em que conheci a espiritualidade monástica tivesse a liberdade de escolha, certamente eu seria como os que ouviam as pregações de São Bernardo de Claraval, e sem exitar, aderiam aos mosteiros com o coração fervoroso de esperança, mas aí compreendo que as Bênçãos e Graças concedidas a mim, indigno pecador, tem os méritos das orações de todos os mosteiros espalhados pelo mundo que junta à outras tantas Piedades de cada cristão em sua condição própria de vida ( sacerdotes, religiosos, consagrados, pais de famílias …) que numa mesma intenção, oferecem à Deus as intenções de toada a Igreja e então sinto que sou fruto da misericórdia de Deus que ouve a oração da Igreja em favor de todos os que sofrem …

      Somos felizes por reconhecer a presença de Deus nas diversas circunstâncias …

      Fraternal abraço.

      sua Bênção.

      Curtido por 1 pessoa

  3. Impressionante! Muito obrigada por compartilhar!
    Fez me lembrar da minha primeira impressão de quando estive no Mosteiro, há uns dois anos atrás.
    Eu que nem imaginava da existência de mosteiros, fiquei profundamente surpresa de encontrar a paz, a alegria no silêncio, os olhares ternos e gestos que dizem o amor pela paciência e gratidão. Foi como se tivesse encontrado o lugar e a maneira de viver para o qual fomos feitos.
    Muito obrigada! Deus os abençoe +

    Curtido por 4 pessoas

  4. Fantástico !
    Tive o privilégio de participar da Missa presidida por D. Mauro no mosteiro de Itatinga / SP, é extraordinária a capacidade de transmitir a mensagem do Evangelho de modo absolutamente simples e fascinante, mas é na simplicidade de seu agir que nos transmite o real sentido da vida.Sabedoria e mansidão brotam de gestos modestos e humildes e fazem deste monge um autêntico servo de Deus.

    Esta matéria, sem dúvidas, foi uma ótima sugestão do blog, podem partilhar mais sobre a vida de D. Mauro ?

    Curtido por 1 pessoa

  5. Parabéns pela belíssima explanação da vida monástica .
    D. Mauro-Giuseppe Lepori disse muito bem em nos lembrar que em meio a um mundo tão secularizado e com uma capacidade de distanciamento tão grande do próprio ser,nós monges,somos sinais e fazemos memória do maior desejo do ser humano,que é ser intimo de Deus .
    Obrigado comissão Cisterciense pela tradução e por encher nosso coração de sentido .

    Curtido por 1 pessoa

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