“Vós sereis testemunhas de tudo isso”: Terceiro Domingo da Páscoa

« “São essas coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que esta escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras, e lhes disse: “Assim está escrito: “O Cristo sofrerá e ressuscitará ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sereis testemunhas de tudo isso” » (Lucas 24, 35-48  — Terceiro Domingo do Tempo Pascal).

I. Na Lei e nos Profetas, a chave de Jesus para sua vida; nos Evangelhos, a chave para a nossa vida

Quando Jesus meditava a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos, ele contemplava seu futuro. Todo o Antigo Testamento falava dele e em suas páginas ele encontrou o seu destino. Não foram carne e sangue que lhe revelaram seu percurso messiânico, mas seu Pai no céu na Palavra Sagrada, “segundo as Escrituras”.

Quando nós lemos e meditamos os textos dos evangelhos, nós descobrimos o nosso futuro.  A Igreja é definida como “a extensão da Encarnação na história”, e cabe aos seus membros viver, em sua geração, aquilo que o Filho de Deus viveu na sua.

Aqueles entre nós que têm o costume de rezar o terço certamente já perceberam, por intuição espiritual, que os mistérios gozos, luminosos, dolorosos e gloriosos não constituem apenas a história de outrem, mas a história de cada cristão. Os Exercícios Espirituais divididos em quatro semanas baseiam-se na mesma pressuposta.

II. Seguir a Jesus em sua Paixão e Ressurreição

Quando se trata de imitar Jesus em sua vida escondida e em seu ministério público, não nos é tão difícil de entender. Estamos vivendo como discípulos de um mestre; imitando-o, estamos recebendo uma formação moral e espiritual.

Mas quando vem a hora de imitá-lo em sua morte e ressurreição, as coisas se tornam mais misteriosas. Sentimos que há algo errado. Mas São Paulo deixou claro que este seguimento de Jesus na cruz e na ressurreição não é uma mera condição do discipulado, mas a meta do discipulado. Este é o grande desideratum de Paulo. Como ele escreve na carta aos Filipenses: “Quero conhecer a Cristo, a força de sua Ressurreição e a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos” (3,10-11).

Em que consiste o mistério? No “por que” de nossa “repetição” da paixão, morte e ressurreição de Senhor. Qual é a sua finalidade? Não pode ser para a remissão de nossos pecados. Não somos nós que expiamos os nossos pecados por meio de nossos sofrimentos. Escutamos o Apóstolo João declarar que Jesus Cristo, o Justo, e somente ele, é “a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo. 2,2). São Paulo ficaria horrorizado só pensar na possibilidade de suas palavras na carta aos Filipenses serem compreendidas como uma afirmação de auto-salvação individual, onde cada um se redimiria a si mesmo, crucificado sobre a cruz de sua própria existência. Não. Há um só Redentor, um só Salvador: Jesus Cristo que nos resgatou e nos lavou com seu sangue.

Mas neste caso, qual é o significado que nosso seguimento de Jesus em seu mistério pascal? Se ele já tirou os pecados do mundo, será que é necessário que eu suba para Jerusalém, e de Jerusalém para Calvário e de Calvário para uma cruz? Não basta eu ficar muito agradecido a Jesus por ter tomado meu lugar, por se ter deixado ser feito pecado?

III. Inseridos no mistério de Cristo

Este é realmente o mistério. Por um lado, é absolutamente certo que só o sacrifício de Cristo me salva, e nula é a minha contribuição a esta salvação. “Cristo, tendo oferecido pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus. Por uma única oblação tornou perfeitos para sempre os que foram santificados” (Hebreus 10, 12-14). Por outro lado, reconhecemos que é na medida em que somos associados a ele, configurados a ele, assemelhados a ele, que a sua morte expiatória se torna eficaz para nós. Precisamos ficar perto dele, ou melhor, sermos inseridos nele, para que o seu sacrifício seja vivificante para nós. Longe dele, levando uma vida de sofá, não há é possível que a graça de sua morte e o poder de sua ressurreição nos penetre e nos transfigure.

Além disso, como a citação de S. Paulo sugere, há uma necessidade afetiva: desejar estar onde o Mestre está. “Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estiver, estará também aquele que me serve (Jo. 12,26). E não somente “onde”, mas “dentro”. Como afirma Paulo na mesma carta aos Filipenses: “Considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado nele (3,8-9). Ao lado não basta. Só basta a mútua habitação: eu nele e ele em mim. Esta é a grande intuição da mística do Evangelho de João.

IV. Lectio divina, antecâmara da Glória

Então, nosso seguimento de Jesus por toda a nossa vida, à nossa maneira – isto é, à maneira que Deus escolheu para cada um de nós – de reproduzir a Semana Santa na nossa vida pessoal não acrescenta nem a moedinha da viúva ao preço da nossa salvação. É ele, e só ele, que nos salva. Ao mesmo tempo, este partilhar do destino de Jesus é a nossa vocação, é a porta que abrimos para que ele entre em nós e nos salve. Entramos em comunhão com ele por suas chagas; ele entra em comunhão conosco por nossas chagas, aquelas chagas que aceitamos por amor a ele.

Sim, o relato da vida de Jesus no evangelho é a nossa autobiografia. Contemplamos nas páginas da Bíblia aquilo que somos chamados a viver. Na Lectio divina, na meditação da Palavra de Deus, abraçamos nosso destino. Depois, em comunhão com Jesus, o assumimos e o vivemos. Esta não é ainda a nossa salvação; mas já é a nossa participação na glória. ⊕

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5 comentários sobre ““Vós sereis testemunhas de tudo isso”: Terceiro Domingo da Páscoa

  1. Olá, caríssimos, pax! No texto aparece (…) “Exercícios Espirituais divididos em quatro semanas baseiam-se na mesma pressuposta”. De quais ‘Exercícios’ o texto se refere? Seriam os de Santo Ignácio de Loyola?

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