São Patrício e a Irlanda monástica (II)

No artigo anterior, vimos que a fé de S. Patrício nasceu num contexto eremítico, na solidão dos verdes campos irlandeses onde ele cuidava do rebanho de seus senhores. Mas o Monaquismo caminha com duas pernas: o Eremitismo e o Cenobitismo [1]. Como foi a experiência Cenobítica de S. Patrício?

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Vitral do Mosteiro Mount Saint Joseph, Irlanda

Existem pessoas que, por terem encontrado a Deus num contexto de interioridade acabam desprezando a necessidade de uma vida comunitária. “Se eu encontro Deus no meu coração, para que ir a Igreja?”, perguntam eles. Patrício tem uma bela resposta.

Antes de entrarmos nela, porém, é preciso fazer uma consideração sobre a sua autobiografia. É comum, hoje em dia, ouvirmos “testemunhos” de fé, ou seja, pessoas contando como Deus agiu em suas vidas. Muitos estudiosos já notaram, porém, que, na maioria dos casos, o personagem principal é a própria pessoa, sendo Deus um mero coadjuvante, cuja menção só serve para aumentar o prestígio do verdadeiro protagonista. Com Patrício acontece o contrário! Ele deixou de dar muitas informações que gostaríamos de ter porque seu foco não era o seu eu, mas o próprio Deus. Colocando-se como ator coadjuvante, ele deixa os holofotes sobre Deus e sente-se à vontade e feliz por ser apenas o Seu carregador de piano. Isso, segundo alguns Patriciólogos, explica a ausência de menções em sua autobiografia a uma estadia em mosteiros. Mas um outro texto, chamado “Vita Sancti Patricii”, mais conhecido pelo nome de seu autor, um monge irlandês do século VII, chamado Muirchu afirma que, a caminho de Roma, S. Patrício “encontrou um homem muito santo, aprovado na fé e na doutrina (…) com quem permaneceu por um tempo considerável, como Paulo aos pés de Gamaliel, e lá, em perfeita sujeição, paciência e obediência, ele aprendeu, amou e praticou o conhecimento, a sabedoria, a castidade e toda boa disposição de espírito” (I,6)[2]. Esse “homem muito santo” era ninguém menos que S. Germano de Auxerre, citado expressamente por Muirchu.

Se São Patrício realmente viveu no mosteiro de Auxerre pode até ser discutido, mas isso pouco importa, porque o elemento fundamental de seu cenobitismo vem de sua espiritualidade, que se baseia sobre a revelação da Santíssima Trindade. Nisso os escritos de Patrício e as lendas posteriores estão em pleno acordo. O chamado “Creio de S. Patrício” (C4) traz uma das mais belas profissões de fé trinitárias já feitas, e é expresso de modo muito belo na lenda da pregação ao Rei Laoghaire, na qual ele teria usado um trevo (uma planta com três folhas) para exemplificar a Trindade (um Deus com três Pessoas). O fato é que a perspectiva trinitária impede o isolamento, o subjetivismo isolado e age como uma força centrípeta, trazendo todos, de onde quer que estejam, para o mesmo ponto de encontro, que é a Igreja.

Portanto, a resposta de Patrício à pergunta inicial seria algo como: “porque o Deus que eu encontro é uma comunidade que quer formar comunidades, criar laços, libertar-nos do nosso egoísmo. Se eu me isolo, me afasto dEle. É a vivência comunitária que autentica a verdadeira experiência espiritual, e distingue esse belo trigo do joio do narcisismo espiritual, do egoísmo disfarçado de fé.”

O elemento trinitário, é, para Patrício, o ponto de chegada de sua fé. É nele que tudo deságua, como um oceano para o qual todos os rios correm. Mas, ao mesmo tempo, ele também é o ponto de partida, o motor que levará à criação de inúmeros mosteiros, e dará um rosto muito particular à Igreja na Irlanda. Mas isso fica para o próximo artigo. ⊕

Pe. Emilio Bortolini, diocese de União da Vitória, SC | emiliobortolini@yahoo.com.br


[1] Para o leitor não familiarizado com esses termos, “eremita” ou “anacoreta” é o monge que vive sozinho, e “cenobita” é o que vive em uma comunidade (cenobium), ou seja, um mosteiro.

[2] Texto traduzido por mim, disponível em www.confessio.ie

Leia também:

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6 comentários sobre “São Patrício e a Irlanda monástica (II)

  1. Pingback: São Patrício e a Irlanda monástica (I) | O Caminho Cisterciense

  2. Artigo muitíssimo interessante!
    A vida de São Patrício foi realmente “cheia de paradoxos”: desgraçado por um sequestro e rebaixado à escravo em país estrangeiro, valeu-Se Deus da tragédia para libertar sua alma pelas vias da oração, conduzindo-o à pátria verdadeira. O então pastor foi pastoreado por Aquele que conhecia onde estava escondido o tesouro no campo (Mt 13,44)…
    Bom, nesse ponto, fiquei me perguntando como conseguiu o santo, ainda tão jovem e atribulado, crescer na oração e na intimidade com o Altíssimo sem qualquer direção espiritual. Sem dúvida, a intercessão de sua família foi decisiva, mas as biografias chegam a comentar um pouco mais a respeito?
    Outra coisa que me chamou a atenção foi ele ter sido monge aqui no ocidente mesmo antes de São Bento (considerado o pai do monaquismo ocidental). Então fiquei me perguntando quais tipos de regras de vida haviam na Europa naquela época. Será que podem comentar um pouco sobre isto?
    Agora, o que me intrigou foi saber que a Irlanda foi uma região onde a expansão da vida monástica se deu de maneira fecunda mesmo sem qualquer evangelização prévia… Interessante, pois me parece uma quebra de paradigma do pensamento atual que enxerga a vida monástica como uma reclusão que reduz a quase zero a ação apostólica. Mas, quanto a isso, acho que vou preferir deixar as perguntas para o último artigo!
    Esse outro paradoxo – aparente -, de um monge conhecido como Apóstolo, pode ajudar muita gente a entender como a vida reclusa pode promover milagres como o “milagre irlandês”.
    Agradeço a atenção e parabenizo os cistercienses pelo material de qualidade que tem sido disponibilizado neste blog.

    Curtido por 2 pessoas

    • PAX.
      Sim, havia vida monástica na Europa antes de São Bento. O próprio São Bento, ao escrever sua Regra, se baseou em outras regras existentes, como a “Regra do Mestre”, a Regra de S. Agostinho e as “Regras monásticas” de S. Basílio Magno. Outros nomes célebres que precederam São Bento no monaquismo europeu: S. Martinho de Tours (que fundou um importante movimento monástico na França), João Cassiano (que trouxe consigo vasta experiência monástica do deserto do Egito) e S. Columbano (monge irlandês cujos mosteiros se espalharam por boa parte da Europa). A Regra de S. Bento foi, por assim dizer, o fruto maduro de uma longa tradição ascética que remonta ao Século II.
      Posteriormente, a vida monástica “beneditina” formou a base das grandes reformas que estruturaram a cristandade medieval – e, conseqüentemente, toda a Civilização Ocidental. Por isso São Bento é considerado não apenas o “Pai dos monges”, mas o Patrono da Europa.

      Sobre a “misteriosa fecundidade apostólica” da vida monástica para a evangelização dos povos: a longa história da Igreja a comprova. Pretendemos falar sobre isso no blog, por isso criamos o marcador “Europa Cristã”. Futuros artigos estão a caminho.

      Quanto às perguntas sobre São Patrício, o próprio Padre Emílio (autor do artigo) lhe responderá, neste mesmo espaço.

      Curtido por 3 pessoas

    • Olá, Breno, como vai?
      Muito inteligentes as suas considerações.

      Não existe, nem nos escritos autênticos de S. Patrício nem nas Hagiografias posteriores, menção a algum Diretor Espiritual. É certo que já existiam cristãos na Irlanda naquela época, mas eram poucos e esparsos e não há nenhum documento histórico que confirme um “catecumenato” de S. Patrício (embora, teoricamente, seria uma hipótese plausível). Os textos levam a crer numa direção direta da parte de Deus. Na C2 (segundo parágrafo da Confissão) lê-se: “o Senhor me fortificou e consolou como um pai faz ao filho”, ou seja, diretamente, sem intermediários. C12: “Aquele que tem todo poder veio a mim, e, em Sua misericórdia me levantou”. Os relatos posteriores de Muircchu (I, 1) e Tirechan (1) falam de um “anjo” enviado por Deus para acompanhar o jovem Patrício durante seu cativeiro atribuindo-lhe o nome de “Victoricus”, o mesmo dado por Patrício quando fala do sonho no qual os irlandeses pediam que ele voltasse para lá.

      Acho que você vai gostar de ler os escritos de Patrício que, além de belos e profundos, tem a vantagem adicional de não serem longos hehehe e podem ser encontrados em português, como no ótimo site confessio.ie.

      Deus te abençoe

      Pe. Emílio

      Curtido por 2 pessoas

  3. Muito grato pelas respostas, monges e Padre Emílio.
    Com certeza serão muito edificantes os artigos que ainda estão por vir sobre vida monástica. Agradeço também em especial o incentivo para conferir a autobiografia de São Patrício… Li o começo e fiquei interessado! Realmente não é um texto longo e parece ser muito bom mesmo.
    Aproveitando a oportunidade, deixo uma sugestão ao blog de um artigo sobre a tradição musical monástica / cisterciense. Tem tanta música em estilo gregoriano que eleva o espírito e boa parte dessa tradição ainda perdura nos mosteiros que acho que pode ser outro tema fascinante.
    Deus também os abençoe e a todos nos guarde a Virgem Maria.

    Curtido por 1 pessoa

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