A missão da Escola Católica numa sociedade plural: Conferência de D. Bernardo Bonowitz, OCSO

Escola do serviço do senhor, escola da caridade, escola de Cristo… todos esses nomes aplicados à vida monástica não deixam dúvida de que há uma estreito parentesco entre a vida monástica e a educação Cristã. Portanto não é algo tão surpreendente que um monge cisterciense tenha sido convidado a dar uma conferência em um recente encontro nacional de diretores de escolas católicas, que publicamos aqui. Pois sabemos que a Fé Cristã é um imenso tesouro que nos foi confiado. Sabemos também que na fé Cristã está a origem e o fundamento de nossa cultura e nossa Civilização. E este tesouro não é nada menos que a Sabedoria de Deus e Sua obra criadora no mundo.

E este tesouro não nos foi confiado para ser guardado em uma gaveta, mas para ser assimilado, vivido e cultivado — e finalmente comunicado, transmitido. Daí a imensa importância da educação da juventude segundo a visão Cristã, e a importância de que os educadores católicos tenham a consciência de serem portadores de um tesouro de Sabedoria e que sua missão principal está na transmissão (traditio) deste tesouro para a jovem geração.

Por isso, nas palavras de D. Bernardo, a escola católica (e toda educação Cristã) é chamada a ser uma Escola de Sabedoria, onde a jovem geração é iniciada na nobre arte de viver, de tornar-se plenamente pessoa, de aprender a amar e a servir.

Que Deus abençoe todos os professores e mestres que se dedicam a esta belíssima missão.

Segue a Conferência.


A Catolicidade da Escola Católica

A missão da escola católica em uma sociedade plural

I. Uma Escola Sapiencial

Uma escola católica é uma escola sapiencial (“wisdom school”), onde o que é providenciado é uma formação inicial na Sabedoria.

Pelo termo “Sabedoria”, entendemos algo muito mais abrangente do que a mera transmissão de conhecimento. O conhecimento sem dúvida faz parte da sabedoria, mas há outros “ingredientes” indispensáveis (a Sabedoria, desde o Livro dos Provérbios, é descrita como um banquete, ou uma mulher preparando um banquete): o amor, a experiência, os relacionamentos, a fundamentação e a inserção na realidade.

Uma escola sapiencial apresenta e oferece toda uma tradição profunda da vida, e prepara seus alunos para a viverem verdadeiramente e também para enriquecer o que têm recebido; e, por sua vez, levar adiante a comunicação desta tradição.

Um exemplo de uma escola sapiencial é um mosteiro. São Bento na sua Regra o descreve como schola dominici servitii – uma escola do serviço do Senhor; os Padres Cistercienses do século XII descrevem o mosteiro como a schola caritatis ou a schola Christi (escola da caridade; escola de Cristo). O que se aprende então numa escola sapiencial e a ars vivendi – a arte de viver. O mais básico do básico. Como viver? Como aprender a servir ao Senhor; como aprendera amar? Como aprender a assumir Cristo?

Uma escola sapiencial tem sua origem na experiência de um povo “sábio e inteligente”, um povo que recebe a sabedoria, a assimila, se apropria dela, e a cultiva.

Em nossa própria tradição ocidental, enraizada na Bíblia, há uma ligação muito forte entre a Sabedoria e o temor do Senhor (“O temor do Senhor é o início da Sabedoria”).

Assim como o termo sabedoria, o “temor do Senhor” é um conceito complexo. Dentro dele se encontra o temor reverencial de Deus (mysterium tremendum), a lealdade para com ele, o serviço prestado a ele, a amizade com ele, comunhão como ele, e por fim, a experiência de amá-lo e ser amado por ele. “Temê-lo” de todos estes modos significa começar a tornar-se sábio.

A finalidade, a justificação da nossa existência humana é precisamente esta: tornar-se sábio, alcançar a sabedoria. Pensemos nas citações dos livros sapienciais: “Em comparação com ela, tudo o resto não passa de lama”; “Eu a buscava desde a minha juventude”; “Eu a almejava como a minha esposa” (Pensemos ainda no dominicano do séc. XIV, Henrique Suso, que contraiu um casamento místico com a Dama Sabedoria).

O homem sábio é a pessoa plenamente humana – ou melhor, é a pessoa. O “insensato” ainda não chegou a ser uma plenamente pessoa, a ser gente.Então, uma escola sapiencial não é a mesma coisa que uma escola técnica. O que se aprende numa escola técnica são “techné”, habilidades: tocar piano, talhar madeira, exercer medicina, retórica, matemática, etc.

Todas estas habilidades são maravilhosas e nobres, quando elas têm as suas raízes plantadas no solo da sabedoria, quando surgem de uma visão de vida como aquela acima descrita, quando constituem facetas de uma existência vivida na presença do Criador e em seu serviço.

Porém, faltando esta contextualização, esta inserção na Sabedoria, permanecem meras habilidades. E num determinado momento de nossa vida, elas nos decepcionarão, nos deixarão vazios e tristes. A cultura humana e a ciência humana, por mais que sejam elevadas e sublimes, não bastam, e não conseguem ser seu próprio fundamento. (W. Kasper no seu livro, “O Deus de Jesus Cristo”, fala sobre a tentativa dos pensadores do século 19 de afirmar a autonomia da transcendência humana sem qualquer referência a Deus. Segundo ele, os totalitarismos do século 20 provaram a insustentabilidade desta posição).

II. A Escola Sapiencial Católica

Por sua natureza, uma escola católica é uma escola sapiencial. Ela deve ter consciência de ser detentora e guardiã de um tesouro de sabedoria, e sua razão de ser principal consiste na transmissão (traditio) deste tesouro à jovem geração.

A particularidade, a especificidade da escola católica – e da própria fé católica – é a identificação que ela faz entre a Sabedoria Eterna que enche e governa o universo e uma das inúmeras bilhões de pessoas que viveram nesta terra: Jesus Cristo. A afirmação do catolicismo é esta: Jesus Cristo é , em si mesmo, a plenitude de sabedoria (Para Kierkegaard, este “escândalo da particularidade” – um Deus que se encarna numa única pessoa determinada – representa o grande obstáculo da fé para o homem moderno).  Como católicos, afirmamos que é por meio do conhecimento de Jesus e da configuração de nossa vida à sua que se alcança a sabedoria.

O que significa dizer que o homem Jesus Cristo é a própria sabedoria? Ele é o ser humano que exprime perfeitamente o timor Domini do qual falamos antes . Ele é o homem que se tornou sábio ao abrir-se irrestritamente a Deus e a seus caminhos, o homem compenetrado pelos ensinamentos do Senhor, completamente formado por eles. (Pensemos em outras propostas para a aquisição da sabedoria: Para o compositor R. Wagner, em sua ópera Parsifal, o homem se torna sábio pelo sofrimento; para o escritor Hermann Hesse, pelo acúmulo de experiências. Hoje em dia, muitos identificam a sabedoria com a erudição).

Mas podemos perguntar, como os conterrâneos de Jesus perguntavam no Evangelho, “De onde lhe vem esta sabedoria?”. A resposta é, em primeiro lugar, que, em sua vida humana, Jesus começa como simples discípulo. Ele mergulha por completo na sabedoria da Torá, a Lei de Deus. Deixa-se ser modelado pela sabedoria da Torá, tornar-se (como um bom judeu) uma só coisa com a sabedoria da Torá, estudando-a e pondo-a em prática. Ele se identifica com a tradição bíblica, compreende a si mesmo nos termos desta tradição, e seu grande desejo é de vivê-la plenamente (“Não vim para abolir a Lei, mas sim, para levá-la à plenitude”).

Segundo: Formado por esta sabedoria, identificado com ela, ele se torna capaz de um discernimento: de distinguir entre “as meras tradições humanas”, como ele mesmo diz, e a intenção primordial de Deus. Isto permite que ele, como um bom escriba, “tire do seu tesouro coisas novas e velhas”. Suas atitudes relativas à observância do sábado, à veneração devida ao Templo, à pureza ritual e sua priorização do perdão, misericórdia e amor – tudo aquilo que suscita reações fortes em seus contemporâneos – não são aberrações, interpretações heréticas da Torá, menos ainda rebeliões contra ela. Ao contrário são descobertas intuitivas, contemplativas, reflexivas, do significado original do texto da Torá e do espírito da Torá (“No princípio não era assim”. Uma compreensão da intenção divina de uma prática.

Terceiro: Jesus se dedica integralmente a viver esta sabedoria com fidelidade em todas as suas palavras e ações, e a partilhar tudo o que tem apreendido por meio de uma vida itinerante de pregação e ensinamento. Por meio de curas, parábolas, interação com os excluídos, Jesus comunica sua intuição central do conteúdo da sabedoria bíblica: Deus é o Pai misericordioso que se compromete com seu povo, e vai em busca daqueles que se afastam da vida em comunhão com Ele (esta é a mensagem central do Sermão da Montanha).

Quarto: Jesus assume as conseqüências de sua entrega à divina sabedoria (cada vez mais é uma só coisa com ela), tomando sobre si o destino dos profetas e sábios de toda a sua tradição, morrendo como o justo fiel, abandonado, rejeito incompreendido, e perseverante até a sua morte violenta.

É no tempo litúrgico em que estamos, o tempo pascal, que Jesus, em sua humanidade, alcança a plenitude de sua relação com a sabedoria. Ressuscitado pelo Pai,é dado a Jesus transmitir não somente exteriormente mas também interiormente a sabedoria e a reverência de Deus (Timor Domini, obediência) que se encontra no centro de sua pessoa. Pela comunicação do seu espírito, Jesus não é apenas um indivíduo sábio ao nosso lado, mas ele se torna sabedoria e poder para todos os que se abrem a ele. Ele se torna a fonte de nossa sabedoria, e funda uma comunidade em torno de si, uma escola sapiencial eterna: a Igreja.

III. A Tarefa da Escola Católica

Creio que a tarefa fundamental de uma escola católica é iniciar em seus alunos a atualização contemporânea deste “processo de Jesus”, e assegurar para eles, na medida do possível, uma continuidade fiel neste processo nos seus anos adultos.

a) Há um dever de ensinar a visão bíblica da sabedoria da qual Jesus era herdeiro e discípulo- transmiti-la não simplesmente como uma herança cultural, mas como a base confiável da vida neste mundo.

b) Há um dever de inspirar um amor e fidelidade a esta tradição –não porque é nossa– não por causa de uma lealdade tribal- mas porque é de Deus: é a revelação de Deus que orienta a vida humana para sua plenitude.

c) Há um dever a ajudar os alunos a desenvolver o dom de discernimento em relação com a tradição católica: a capacidade de priorizar, de distinguir entre aquilo que é absolutamente central e perene e aquilo que é secundário e sujeito à mudança. É crucial comunicar aos alunos tanto o “ressourcement” (volta às fontes) quanto “aggiornamento” (atualização).

d) Há um dever de formar nos alunos um caráter moral forte e resistente- um desejo e uma capacidade de assumir as conseqüências de sua tradição de fé e sabedoria, para que eles possam perseverar nesta visão sapiencial no meio de tantas visões superficiais que a contradizem e ridicularizam, para que possam levar este tesouro consigo para a vida depois do colégio, e para que sejam dispostos a pagar o preço (cultural, social, econômico) de sua fidelidade.

e) Há um dever de preparar os alunos para serem “portadores do Espírito”- o que é descrito aqui no Brasil como “discípulos-missionários”, para serem testemunhas- e comunicadores- dos valores, dos ensinamentos e do mistério de Jesus na sociedade atual.

No contexto de uma escola católica, Jesus não pode ser colocado entre parênteses, nem reduzido a mais um “patrimônio da humanidade”.

Sei que nas suas escolas hoje em dia há muitos alunos não-católicos e não cristãos. Eles merecem ser tratados todo o respeito; merecem ser ouvidos e compreendidos. Tudo aquilo que é nobre e verdadeiro em suas tradições deve ser valorizado. O mesmo pode ser afirmado de alunos que vêm de lares sem tradição religiosa, mas onde exista um genuíno humanismo moral e interpessoal.

O respeito ecumênico e inter-religioso, porém, não põe fim à missionariedade da escola católica. Desde os tempos dos Padres da Igreja, que tinham uma visão ampla da realidade, percebia-se que a humanidade, em todos seus anelos e esforços para fazer contato com a verdade, consegue fazer este contato. Ao mesmo tempo, diziam os Padres (como já São Paulo afirmava no Livro dos Atos 17,27), a humanidade está “buscando às apalpadelas” para uma plenitude que ultrapassa a inteligência humana. A responsabilidade do cristão é de anunciar o que não foi descoberto, mas revelado.

E certamente, no contexto cultural e intelectual no qual vivemos, e com as fortes pressões que ele exerce, é muito importante o cuidado para que o nosso “respeito ecumênico e inter-religioso” não tenha sua origem num indiferentismo ou relativismo da nossa própria parte.

Este é um olhar de fora, o olhar de um monge trapista. Foram vocês que pediram! Um olhar de fora sempre tem seus limites. Espero que tenha suas vantagens também. ⊕

 

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4 comentários sobre “A missão da Escola Católica numa sociedade plural: Conferência de D. Bernardo Bonowitz, OCSO

  1. Chamou-me muito a atenção quando Pe. Bernardo diz (…) “o homem Jesus Cristo é a própria sabedoria” (…) e então me remete a ideia de que Ele seja a própria Pedagogia, não só como Deus, mas também como homem. Eu como Diretor de uma escola laica tenho constantemente me questionado como poder exercer meu ministério educando tendo como base a Verdade. Minha constatação então é: “sendo se é”.

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  2. Tudo o que Dom Bernardo disse é corretíssimo, todos nós hoje percebemos que se queremos ter uma juventude de fato católica, que vivam os valores católicos é preciso que então exista estas pessoas: padres, religiosos, monges, professores, e outros, que se dediquem levar a verdadeira sabedoria a eles. Hoje infelizmente a educação católica no Brasil é muito fraca, são poucos os jovens que tem uma formação realmente católica e que buscam dar testemunho da sua fé, não se importando com as consequências da vida que assumiram. E vejo que uns dos principais motivos de não termos católicos de fato em nosso país é, porque faltam professores, padres, religiosos, leigos, que deem testemunhos para o jovem de como é uma verdadeira vida de um cristão católico e creio que se ouve-se isto o testemunho seria muito mas fácil levar o conhecimento verdadeiro que é o próprio Cristo.

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