Homilias Semana Santa (III): Vigília Pascal

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, abade
Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente, PR


 

Sobre alguém que habitualmente se prejudica a si mesmo por seu comportamento ou suas palavras, costumamos dizer: “Ele é seu pior inimigo.” Mas esta afirmação vale igualmente para cada um de nós. Estamos constantemente fazendo ou dizendo coisas que contradizem nossos desejos e valores mais profundos, como se alguém estivesse ao nosso lado com uma arma apontada para nossa cabeça, mandando-nos fazer o que não queremos fazer e conseguindo que façamos aquilo que detestamos.

Paulo vivia este drama – ele nos conta no capítulo sete da Carta aos Romanos – e isto constituía seu maior sofrimento e seu paradoxo interior mais intenso: “O bem que quero fazer, não o faço; o mal que não quero fazer, é isto que eu faço.” Falava de uma lei dupla que o levava a viver uma vida dupla: a lei de sua mente e a lei de sua carne.

Também a literatura é cheia de narrativas sobre o “Doppelganger”: o “Duplo” que anda ao meu lado, perseguindo-me e assumindo poder cada vez maior sobre mim. Os escritores “projetam” exteriormente este inimigo interior, como se fosse inteiramente uma segunda pessoa; mas eles sabem que ele é o inimigo doméstico, o inimigo interior, o eu hostil a mim mesmo, aquele que trama a minha ruína. Para uma pessoa fundamentalmente boa, esta atividade nefasta que surge de dentro de nós pode levar-nos até o desespero. “Infeliz de mim”, exclama Paulo, “quem me libertará dessa condição mortal?”. “Mortal”, quer dizer: próxima à morte, conduzindo para a morte. A situação, tal como está, é insustentável. Um de nós tem que morrer: ou eu ou meu inimigo intestino.

Esta é a proclamação desta Santa Noite: O inimigo dentro de nós morreu. Assim afirmou Paulo exultante na leitura do Novo Testamento, que acabamos de ouvir: “Sabemos quer o nosso velho homem foi crucificado com Cristo, para que seja destruído o corpo de pecado, de maneira a não mais servirmos ao pecado.” O velho homem, a carne, o ser carnal – chamem-no como quiserem – foi crucificado com Cristo. Cristo o levou em seu corpo mortal à cruz; e quando Cristo morreu, ele também morreu. “Com Cristo, eu fui pregado à cruz.” Eu quem? O eu que me odeia, o eu dominado pelas paixões, o eu escravo do pecado, ele morreu. Esta é a Boa Nova: aquele velho homem, que afirmava ser eu, que me fazia fazer a sua vontade, que se agarrava em mim e me envolvia – ele foi morto na cruz. Foi para livrar-me dele que Cristo submeteu-se à morte, porque na morte do Senhor, foi posto à morte o meu inimigo letal: aquele que roubou todos meus documentos, aquele que assumiu o meu nome, aquele que se orgulhava de ser o eu real. Na morte de Cristo, ele morreu, e graças a Deus, foi sepultado.

Misteriosamente, é possível que sintamos falta deste “companheiro”, por mais falso e traiçoeiro que fosse. “Não é bom para o homem ficar só”.  Esta é a segunda parte da proclamação pascal. “Não vos deixarei órfãos.” Morto e sepultado o inimigo que partilhava a nossa identidade, recebemos em nós, pela fé e pelo Batismo, o amigo que nos completa. Em sua morte, Cristo matou o nosso velho homem; em sua ressurreição, Cristo assumiu o seu lugar, ele, “o último Adão, espírito que dá a vida.” Cristo ressuscitado é o homem em sua plenitude, mas também é “o Senhor que é o Espírito”. Ele, ressuscitado, por meio do seu espírito, habita em cada um de nós, nos santifica, nos fortalece, nos purifica. Ele é, como diz Thomas Merton, o novo “outro eu”, que só deseja o nosso bem, e nos capacita a realizar o bem em toda circunstância. Ele está com e em cada um de nós até o fim do mundo, não seduzindo, mas inspirando, e dotado de um poder infinito de graça que continuamente nos atrai para o bem e torna nossos esforços eficazes. É verdade que esta noite Cristo, um homem particular, ressuscitou. Mas ele não ressuscitou para manter-se à parte de nós, nem para ficar ao nosso lado, mas para ser o princípio pessoal de vida e santidade dentro de nós; não somente o Deus conosco, mas – em bom português – o Deus “em nosco”.

Agora, é só fazer nossas as palavras da noiva no Cântico dos Cânticos: “Segurei-o e não o soltarei”. Ele nunca nos largará. Graças a Deus, ele é o Deus grudento, o Deus colado.  “Eu vos chamo de amigos”. Para Platão, amigos são uma alma em dois corpos. Em nosso caso trata-se de duas almas em um só corpo. Este, diz Paulo, é o mistério escondido por todos os séculos, mas agora manifestado: “Cristo em nós, a nossa esperança de glória”. Gloria a Ele pelos séculos. Amém+

Leia mais — Homilias de D. Bernardo Bonowitz para a Semana Santa 2018:

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