Homilias Semana Santa (I): Domingo de Ramos

Homilia de D. Bernardo Bonowitz, abade
Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, Campo do Tenente, PR


A narrativa da Paixão é uma história de inconstância, uma história de pessoas sem raízes, e portanto, facilmente desenraizadas por pressões interiores e exteriores. Todo pregador fala da reviravolta chocante da multidão, fervorosamente devotada a Jesus durante sua entrada triunfal em Jerusalém (Hosana!) e implacável em sua exigência por sua execução na Sexta-feira Santa (Crucifica-o!), e depois desumanamente zombeteira no Calvário.Mas a multidão não é uma exceção vergonhosa. É um exemplo da conduta vergonhosa de todos.

Pensemos na afirmação de Pedro e de todos os doze. “Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei”. Assim fala Pedro. E acrescenta o evangelista Marcos: “E todos diziam a mesma coisa”. Quanto tempo levou para voltar atrás nesta decisão solene? Uma hora? Imagine: Declarar-se disposto a morrer por alguém e, sessenta minutos mais tarde, foge para não correr o perigo de partilhar o seu destino.

 Pensemos em Pilatos: Ele sabe, ele simplesmente sabe que Jesus não fez nada que mereça a morte: “Mas que mal ele fez?”. Logo depois, “querendo satisfazer a multidão”, ele entrega Jesus para ser crucificado, e se distancia do caráter moral (imoral) do seu ato, lavando as suas mãos.

Podemos até pensar no caso de Judas, tão resolvido a pôr fim à atividade de Jesus que ele o vende para os sumos sacerdotes. E na manhã seguinte, tão convencido da inocência de Jesus que vai aos sumos sacerdotes (com todo o risco que isto implica para sua própria segurança) para devolver o dinheiro. E segue tão desesperado que se suicida.

Não devemos nos orgulhar por causa do abismo que nos separa destes homens, porque esse abismo não existe. Nós também juramos e revocamos o juramento, afirmamos e negamos – “Nem conheço este homem de quem estais falando!” – dizemos sim e logo depois dizemos não.

Logo no início de seu ministério, Jesus ensinou: “Que teu sim seja sim”. Este é o nosso problema: o nosso sim não penetra com profundidade suficiente para ser prova a todas as forças que nos pressionam. A nossa palavra dada não é mais forte do que o nosso medo e instinto de sobrevivência (os Doze), não é mais forte do que a nossa capacidade de ser manipulados, mesmo contra a nossa consciência (as multidões), não é mais forte do que o nosso desejo de agradar e depois tirar proveito deste agrado (Pilatos). É muito difícil poder dizer um sim ou um não que resiste a todas as circunstâncias e todas as flutuações de nossos corações. E não é questão de uma vez dizer um tal sim ou um tal não, mas sempre falar assim.

Nós somos incapazes de pronunciar este sim, porque este sim precisa repousar sobre um fundamento totalmente estável, e o ser humano não possui este fundamento em si mesmo.

Mas nós temos acesso a este fundamento, e isto também vemos no evangelho de hoje.  Onde é que contemplamos esta realidade? No horto das Oliveiras. Lá, vemos Jesus como presa destas mesmas pulsões – medo, o desejo de sobreviver, o desejo de não sofrer, o horror de experimentar a inimizade e hostilidade de todos, o terror de ficar absoluta e universalmente abandonado. Será que há fatores emocionais mais fortes do que estes, mais decisivos, mais capazes de fazer-nos concordar com tudo aquilo que os outros exigem de nós? Jesus certamente sabia o que o esperava, e o estado interior em que se encontrava era tão massacrante que o fez suar sangue. Não é isto que ele confessa aos discípulos: “Sinto uma tristeza mortal!”?

E, mesmo assim, Jesus consegue dizer a palavra – a única – capaz de manter um sim como um sim e um não com o um não. Qual é a palavra? A palavra é “Mas”. “Abba! Pai! Tudo é possível para ti”. Nesta frase se sente todo o peso do medo e desalento de Jesus. “Tem que ter uma saída, tem que ter”. E em seguida, o “mas”: “Mas seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres”. Jesus cava em si e além de si, até chegar àquele fundamento, o fundamento que é a vontade do Pai. Ninguém seguindo seu próprio querer pode tornar-se estável. A nossa estabilidade existe somente em nossa entrega à vontade do Pai. “Eu quero isto, mas Tu, Pai, queres aquilo. Então, seja feito como Tu queres”. A santa imobilidade de Jesus se encontra no valor absoluto que ele dá à vontade do Pai. Este valor absoluto podemos chamar de “obediência” ou “adoração” ou “amor”. É tudo isto.

E Jesus nunca volta atrás.  Seu grito de abandono ao Pai, seu forte grito de morte estão dentro do seu “Sim, Pai”.

Por este sim que é adoração, obediência e amor, somos salvos. Salvos e chamados a deixar-nos ser recriados e edificados, nós também, sobre este alicerce e nenhum outro: a vontade do Pai.

E se vocês acham que estou me adiantando demais pregando sobre Getsêmani no Domingo de Ramos, é só aguardar a antífona da comunhão da missa de hoje. O texto consiste, palavra por palavra, na oração de entrega de Jesus pronunciada no Horto das Oliveiras. +

Leia mais — Homilias de D. Bernardo Bonowitz para a Semana Santa 2018:

Communio - Pater, si non potest

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4 comentários sobre “Homilias Semana Santa (I): Domingo de Ramos

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  2. Pingback: Homilias Semana Santa (III): Vigília Pascal | O Caminho Cisterciense

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