São Patrício e a Irlanda monástica (I)

Hoje, 17 de março, celebramos a memória de São Patrício, apóstolo da Irlanda. Sua vida, repleta de intervenções sobrenaturais, foi de uma fecundidade formidável. Do casamento entre a fé Cristã e a cultura Celta nasceu uma das tradições espirituais mais ricas da Europa Cristã. 

Para nos contar essa história  ̶ e sua relação com o monaquismo, como veremos  ̶ convidamos nosso amigo o Padre Emílio Bortolini, da diocese de União da Vitória (SC), grande devoto e conhecedor de São Patrício e da Irlanda Cristã. Expressamos aqui nossa gratidão ao Padre Emílio por partilhar conosco essa história.


A vida de S. Patrício é cheia de paradoxos, tanto na sua existência histórica quanto depois desta. Basta dizer que, embora ele seja um dos santos mais celebrados do mundo, é muito pouco conhecido, mas tem muito a dizer a todos nós.

Vejamos, brevemente, um pouco de sua vida e, como este é um blog monástico, suas ligações com o Monaquismo.

st-patrick-writings_1394530431

São Patrício, Apóstolo da Irlanda

Patrício nos conta, em sua autobiografia chamada “Confissão”, que ele era um jovem de família abastada na costa Oeste da Inglaterra, nascido por volta do ano 385. Embora sua família fosse muito ligada à Igreja (seu pai era Diácono e seu avô, padre), ele não acreditava em Deus. Aos 15 anos de idade, ele foi sequestrado por piratas irlandeses e vendido como escravo. Durante os seis anos que durou seu cativeiro, ele passava boa parte do tempo sozinho, cuidando de ovelhas nos verdes campos irlandeses, onde começou uma experiência de oração que mudaria não só a sua vida, mas a de muitos. Quando conseguiu fugir, voltou para sua família, mas, em seguida, possivelmente, entrou num mosteiro. No ano 432, ele foi para a Irlanda, onde começou a evangelização de um país não apenas pagão, mas fora do mundo tido como “civilizado”, visto que nunca tinha pertencido ao Império Romano. Quando morreu, cerca de 30 anos depois, quase toda a ilha tinha se convertido ao Cristianismo, inclusive os Druidas, que eram as autoridades religiosas que influenciavam toda a sociedade celta. Não é à toa que o historiador Daniel Rops chama a evangelização feita por S. Patrício de “milagre irlandês”.

O primeiro ponto é a sua conversão. Aquele “filhinho de papai” viu seu orgulho ser despedaçado quando foi escravizado, mas percebeu que o momento mais escuro precedeu a aurora de um novo dia, e aquela pedra que jazia no fundo do lodo foi elevada pela Mão carinhosa do Senhor, e colocada no topo do muro. E isso aconteceu sem intermediários: na solidão do deserto verde, Patrício não tinha um Diretor Espiritual, era o mais isolado dos Anacoretas, só podia contar com a guia direta do próprio Deus. Esse fato deixou uma marca profunda em sua espiritualidade, em seu ser. Todo o seu trabalho missionário nada mais era do que uma tentativa de levar as pessoas à comunhão íntima com Deus.

Como Padre Diocesano, percebo que sofremos muito por que “nos preocupamos com muitas coisas”, reuniões, projetos pastorais, organização de comunidades, construções, burocracia, e, frequentemente, acabamos esquecendo que “uma só coisa é necessária”: a comunhão íntima com Deus! Herdamos dos romanos e de sua mentalidade jurídica a preocupação excessiva com o foro externo. Se perguntarmos às pessoas em que consiste ser cristão, a maioria dirá: “ir à missa todo domingo, contribuir com o dízimo, participar de movimentos e pastorais”, mas pouco dirão “estar em comunhão com Deus” ou “viver na presença do Senhor”. Essa é uma das maiores contribuições que o Monaquismo tem a dar à Igreja: não nos deixar esquecer que tudo o que fazemos (reuniões, pastorais, etc) só tem sentido se brotar da comunhão com Deus e conduzir a ela, valorizar o foro interno e ver o externo como expressão dele.

Esse é o primeiro ponto da vida de S. Patrício que queremos ressaltar: a necessidade de cultivar uma vida de oração íntima e profunda. Então não é preciso frequentar a igreja, participar da comunidade? Veremos isso na continuação deste artigo.

Leia também:

 

Anúncios

4 comentários sobre “São Patrício e a Irlanda monástica (I)

  1. Pingback: São Patrício e a Irlanda monástica (II) | O Caminho Cisterciense

  2. Obrigada pelo texto!
    A experiência do padre e a comunhão com Deus me leva a lembrar da agitação do dia a dia e que também é vivenciada nas comunidades. Isto me preocupa, porque parece que há uma distância da Verdade e Vida.
    Hoje a minha necessidade, e talvez de muitos, quando tenho participado nas Igrejas (paróquias das dioceses) é o silêncio. Algo que é necessário e que estimula a comunhão com Deus. Pois, como dizia Santo Inácio de Antioquia, Jesus é a Palavra de Deus que foi gerada no silêncio.
    Um abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Olá, Camila, como vai?
    O silêncio assusta quem não está acostumado com ele, mas é o tesouro de quem o conhece. Deus é educado, e, como tal, não fala enquanto o interlocutor não faz silêncio, não interrompe. Por isso, o que é realmente importante é o silêncio interno, mas o externo tem valor enquanto cria um ambiente propício para ele.

    Deus te abençoe

    Pe. Emílio

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá, Pe. Emílio!
      Estou bem graças a Deus e espero que o senhor esteja bem também.
      Agradeço às suas considerações ao comentário, muito significativas e me ajudam.
      Sim, o silêncio é um tesouro e a importância de se manter uma capela interior é o que nos permite estar à presença de Cristo.

      A Paz!
      Deus te abençoe +

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s